“De Deus tudo aquilo que não se pode ver…” #marcelocamelo

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#eucurtorecife

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Em movimento.
Quem se junta?

Em movimento.
Quem se junta?

De Gênesis a Apocalipxo

A primeira vez que a serpente me apareceu, ao invés de uma fruta, deu-me um livro. “O cristianismo é bom para as mulheres e os mendigos. Venha para o humanismo”. No instante em que li, abriram-se meus olhos… Uma espécie de lama — saliva misturada ao barro que esfregada em meus olhos, fez-me enxergar. Eu era o cego de nascença.

À medida que fui ingerindo-o, paralelamente tomei-me consciente e espectador de todo o processo digestivo, da transformação de toda gordura em mim acumulada por anos em pura energia. Machado foi um termogênico. Tempos bons em que se tinha o prazer de eliminar a gordura e fortalecer os músculos.

Mais tarde, consciente do bem (e do mal), mas sem estar comprometido, resultei-me num mero especulador, crítico de fundo quintal, apático, inerte. Capaz de observar tudo e todos, emitir opinião forte, não dei conta de que meu canto era assisti-los em magnitude e miséria — ‘urubuservá-los’. Aliás, miséria minha, que tristemente não percebi. Mas em verdade, em verdade vos digo, tive minha recompensa.

Não tem muito tempo que vi duas tribos lutarem por pão; vi a que sobreviveu ficando com os despojos da guerra, portanto com forças pra atravessar o monte e conquistar as batatas (oxalá se chover). Vi a tribo derrotada, ser varrida. Vi o bicho na imundície do pátio revirando o lixo, fraco, desolado, miserável, descrente do serviço da cruz.

Meu Deus, o velho Quincas tinha (tem) razão, o cristianismo é bom para as mulheres e os mendigos, mas só eles que não veem. Os cristãos não viram o navio chegando: seca? Fome? Dor?. Definitivamente inocentes, estão ocupados com a bandeira do arco-íris, e ignoram tudo… e esquecem.

 

Não Tão Alto

A primeira vez que pensei em suicídio, lembro bem. Aliás, não com precisão, mas sei que foi numa tarde após término de namoro que nem sequer havia começado. Pensei em subir na laje de casa e me jogar de cabeça… até cheguei a subir, olhei de cima pra baixo, deixei o vento me envolver (ventava bastante), mas não tive a coragem…

Coragem de me jogar, não tive, mas de contar… ah! Contar faz parte do meu show. A moça fitou-me os olhos, demorou-se, cogitabunda, preferiu calar… decerto reconhecia dalguma outra ocasião os ares melodramáticos. Indiferente.  Mas se quer saber, não me lembro de ter intenção alguma quando lhe confessei o devaneio. Passou!

Cresci desinteressado pela vida. Sinto que as coisas naturais, em mim, perderam o seu devido peso. A criança que corre e grita na casa, a tia tagarela, os amigos que comentam sobre a mulher, que é bonita e que passa, o ambulante vendendo pipoca, o bêbado entrando na igreja, o filho drogado, a mãe que chora, meu medo da morte… perderam o peso.

Escrevo indignado por minha falta de imaginação. Sempre que penso em partir, lembro-me da laje; uma laje que nem é tão alta, e que certamente perdeu aquele vento de outrora. Poderia ser uma ponte histórica, um edifício no centro, um terminal rodoviário, mas não… penso sempre na laje – diabo de laje. Talvez eu não queira as distrações: uma namorada aos prantos, um melhor amigo, algum ente querido… ou até mesmo algum transeunte qualquer que, vendo a ocasião, resolvesse parar; ou uma multidão gritando: pula, pula, pula, pula… Não posso admitir o ridículo.

Não sou ridículo. Sou um homem medíocre. Desses que se imaginam pulando de uma laje [que nem é tão alta], pulando da laje de sua casa, numa hora qualquer, sem carta alguma, sem peso algum. Diabo de laje                                                                                                                                            [que nem é tão alta assim.

                                                                                                                                              

 

Pra Te Acalmar - Marcelo Camelo.

Hoje Eu Mando Um Abraçaço

…vez outra costumava nos levar ao parque treze de maio, que se somando as idas à praia e o religioso desfile militar do sete de setembro, rendia-lhe o prêmio de demonstração pública de afeto do ano. Mas antes que lhes pareça desdém, lembrar-me esses momentos, traz-me muita alegria, porque agora compreendo que era o momento em que ela esquecia-se de lamentar a vida que poderia ter sido e, resolvia viver finalmente o momento, isto é, curtir os filhos que estavam crescendo (acredito-me).

O que lhe sobrava de força e disciplina falta-lhe em lucidez; vendo-a deste modo, sempre muito exposta, achava-a tola. Sempre reclamando (nunca agradecendo); sempre impulsiva (nunca prudente). Observava muito e tinha ouvidos sempre atentos, mas o mau costume de apontar o cisco no olho alheio lhe impedia de enxergar a trave em seu próprio olho.

Se falo no passado, não é porque não exista mais, minha mãe é viva ainda.. e envelhece. Hoje, infelizmente, há uma lacuna de espaço e sentimento enorme entre nós… e não, os primeiros parágrafos não são para justificar a nossa não relação; de modo que é muito difícil escrever, embora seja preciso tais linhas, principalmente porque não me é dado tal autoridade.

Mãe, que dizer no dia do teu aniversário? – Mãe?! Mas nunca te chamei de mãe. Agradecer por me ter dado de mamar? Mas me diz tu se darias vinagre ao invés de leite ao indefeso menino?! Parabéns? E se eu disser que a poucas horas do fim do teu dia descobri então que era teu dia?! – Herdei a ingratidão perdoai. Mas se tu quiseres se reconciliar comigo (e eu contigo), daremos uma festa, enviaremos convites dizendo: o meu filho a casa retorna e por isso estamos alegres; então sentar-me-ei à mesa contigo, partilharei do pão e beberei do vinho com todos, e juntos celebraremos a nova aliança.

Nele, que me ensinou a aceitar que não te gosto e a publicar que te amo.

Com amor,

Thomas

                                                                                                                                                                 

#CaetanoVeloso

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